Para transcender é preciso, primeiro, ser.

Yoga busca, de algum modo e como objetivo último de sua sadhana, a transcendência da individualidade. Mas, em um sentido anterior e mais modesto (e necessário para a “transcendência”), o yoga busca, ao contrário, uma afirmação da individualidade. 

Aos nossos ouvidos isso soa como um paradoxo, como no caso de alguém que, querendo evaporar a água, precisasse primeiro resfriá-la.

Não há, contudo, paradoxo algum. O que há é a inexorável condição humana de que uma individualidade coesa, uma personalidade real — plenamente consciente de suas virtudes e faltas reais, de seus méritos e deméritos concretos, de seus sucessos e fracassos no mundo, de suas culpas (reais e imaginadas), etc. — não é coisa que se forme naturalmente, pelo mero passar do tempo. O indivíduo ou personalidade, como sabemos, precisa formar-se.

Uma criança não pode entender a transcendência da qual o yoga fala porque, nela, não há de fato um indivíduo a ser transcendido. Seria como querer destruir uma casa em construção, formada apenas por sua fundação e algumas poucas vigas e tapumes em volta. Isso não é propriamente uma casa, assim como uma criança não é propriamente uma personalidade formada (ainda que seja uma possível).

Uma personalidade, assim como uma casa construída, tem um “peso”, ocupa um “espaço”. As aspas aqui são claras: esse peso não é medido em quilogramas, nem o espaço em metros cúbicos. O peso e o espaço que tem uma personalidade são sua consistência, seu caráter consciente de si. 

A consciência de si como indivíduo é algo que custa formar-se. Ainda que a pessoa imatura tenha, obviamente, alguma consciência de si (até os animais a tem), essa consciência é caótica: mistura fatos reais (empíricos, objetivos), com imaginações e expectativas falsas (subjetivas). Há que se alcançar uma diminuição da subjetividade (o quanto possível) na noção que o indivíduo faz de si mesmo.

Esse caminho para a maturidade começa desde cedo, certamente. Quando bebês, não temos sequer consciência de nossos corpos. O bebê imagina todo o entorno visível como uma extensão de si mesmo. É o “sentimento oceânico”, do qual, se não me engano, falam alguns psicólogos. O bebê transborda a si mesmo numa imaginação (subjetiva) que faz de si. Depois, quando começa a andar e bater o corpo nos móveis e a sentir dor, começa a pequena pessoa a tomar consciência dos seus limites físicos, do seu corpo real. Ortega y Gasset, em um livro cujo título agora escapa à minha memória, chama, por esse motivo, os móveis de “mudos pedagogos”. 

A personalidade, assim, forma-se no encontro com o mundo, no sentido mais amplo que esse encontro pode ter. Por isso são necessários os relacionamentos, o trabalho, a vida social, em suma. Sem ela, não há com o que bater-se, e não há, por conseguinte, a formação de uma noção real da própria individualidade, no sentido das suas capacidades e incapacidade concretas, seus gostos e aversões reais, seus medos e culpas factuais, e assim por diante.

Quando o ensinamento mais profundo de yoga, revelado nas escrituras de vedanta, fala ao indivíduo, ele espera estar falando com este indivíduo maduro, com uma personalidade que tenha alguma consistência própria. Caso o contrário, o grande ensinamento tat tvam asi — você é o todo, a causa do universo —  perdem-se no espaço rarefeito de um “eu” que não é capaz — porque não existe — de assumir a verdade concreta que essas palavras possam carregar.

4 comentários em “Para transcender é preciso, primeiro, ser.

  1. Buscando uma metáfora para essa questão bem colocada, veio-me a visão de um músico e sua criação, expressa em uma partitura. Imagine encontrar essa partitura esquecida em algum lugar.
    Antes de se emocionar com a música é preciso saber ler a partitura. Uma vez lida a música, não se precisa mais da partitura, o som já foi entendido e gravado em memória.
    Mais um texto que nos faz pensar.
    Grato Mestre !!!

  2. Me inspira dizer que o grande ensinamento Tat Tvam Asi introjeta os mudos pedagogos na própria consciência dos limites do corpo físico e da personalidade do indivíduo, com quem passa-se a conviver em profundo respeito e intimidade. Lindo texto prof.Luciano _/\_ gratidão por sua presença em minha jornada.

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