Mantra não é Pensamento Mágico

O que é pensamento mágico?

Pensamento mágico é um conceito de antropologia psicológica que descreve o fenômeno humano de estabelecer uma relação de causa-efeito entre coisas que não possuem de fato essa relação. A chuva, por exemplo, nasce de certas condições atmosféricas determinadas. Não há relação causal verificável entre a dança, os chocalhos e os cantos dos indígenas e a produção das condições meteorológicas propícias para a precipitação pluviométrica. A “dança da chuva” é considerada, portanto, do ponto de vista científico próprio da nossa época, um fenômeno cultural característico do pensamento mágico.

Não seriam assim todas as formas de oração, especificamente os mantras védicos, manifestações de um mesmo tipo de superstição (antirracional e anticientífica por definição)?

A resposta é não, porque o Veda (que revela essas orações) é um meio válido de conhecimento (pramāṇa).

As relações de causa e efeito

A relação de causa-efeito entre as coisas é descoberta pelos meios de conhecimento que temos à nossa disposição, e essa relação é tão válida quanto forem válidos os meios de conhecimento que empregamos para descobri-la. Quando uma bola de bilhar toca outra bola e esta, antes parada, movimenta-se, estabelecemos que o movimento da primeira bola causou o movimento da segunda em uma transferência de quantidade de movimento. Tal relação causal é estabelecida pela autoridade dos nossos olhos, que sempre enxergam a concomitância entre os dois fenômenos (toque da bola 1 e movimento da bola 2).

Devemos entender que o mesmo status de meio válido de conhecimento independente que se dá aos olhos e outros sentidos é dado, tradicionalmente, ao Veda. As relações de causa e efeito que descobrimos através do Veda, portanto, são tão válidas quanto aquelas que descobrimos através da percepção sensível. Elas não precisam e não podem ser verificadas pela percepção sensível. Tal empreendimento seria tão impossível quanto desnecessário, como prova a breve análise a seguir do que significa ser um “meio de conhecimento independente”.  

Independência dos meios de conhecimento

Cada meio de conhecimento é responsável pela revelação de certos fatos que estão sob sua jurisdição apenas. Aquilo que a visão revela é completamente independente daquilo que é revelado pela audição. No caso de um chocalho azul, a cor azul vista pelos olhos não é confirmada nem refutada pelo tipo de som que o chocalho emite quando tocado. São duas esferas independentes e incomensuráveis da experiência (cor e som), reveladas por meios de conhecimentos também independentes e incomensuráveis (visão e audição). O quão disparatada seria a tentativa de validar ou negar o som do chocalho com base na percepção da sua cor, ou vice-versa?

O Veda, como um órgão perceptível independente na forma de palavras (śabda-pramāṇa), revela-nos certos fatos que simplesmente não estão na alçada dos outros meios de conhecimento. Por exemplo, o Veda diz que existem resultados invisíveis para as ações. Ações positivas (dhármicas) produzem mérito (puṇya) e ações negativas (adhármicas) produzem demérito (pāpa). Se esses resultados realmente existem ou não, como sabê-lo? Os nossos olhos e ouvidos nada nos informam acerca de coisas invisíveis e inaudíveis: nem que elas existem, nem que não existem. A autoridade do Veda nesses assuntos, portanto, é absoluta.

Fé e conhecimento não são opostos

A revelação védica sobre a relação causal entre a oração (mantras) e certos resultados concretos no mundo real não precisa nem pode ser primeiro verificada para depois ser validada e posta em prática. Ao contrário, tomamos as palavras do Veda como válidas em si mesmas e depois nos engajamos em colocá-las em prática. Esta disposição de considerar as palavras do Veda, a priori, como meios válidos e independentes de conhecimento é chamada śraddhā, confiança ou fé. A fé, nesse sentido, a despeito do que fala dela o senso comum, não é contrária ao conhecimento, mas sua condição preliminar necessária. 

A lógica por trás da oração

O ser humano possui 3 corpos: físico, sutil e causal.

O corpo físico, composto de braços, pernas, etc., é percebido diretamente pelos sentidos. O corpo sutil, composto dos órgãos sensoriais, mente, emoções, vitalidade, etc., é também intimamente percebido por cada um de nós. O chamado corpo causal, ao contrário, está completamente invisível, não-manifesto (avyakta), indisponível para nossa percepção.

Ele, contudo, deve existir, porque os acontecimentos da nossa vida devem ter uma causa, uma razão de ser (e aqui está um exemplo de como a lógica não é contrária à revelação védica). Às vezes as coisas dão certo, outras vezes não. “Explicamos” nosso sucesso e fracasso com os conceitos de sorte, azar e acaso, os quais não são de maneira nenhuma conceitos racionais. O pensamento de que alguma coisa qualquer (boa ou ruim) possa ocorrer sem nenhuma causa (por acaso, pela aleatoriedade da “sorte” e do “azar”) é, isto sim, uma manifestação do pensamento mágico ao qual aludimos. 

O que o Veda nos revela é que “sorte” e “azar” não são casuais, fortuitos, acidentais: são especificamente causados por méritos e deméritos produzidos por ações boas e más feitas por nós anteriormente, no passado imediato (nesta vida) ou remoto (em outras vidas). O corpo causal é a parte da nossa individualidade que registra esses resultados das ações, os quais se tornam manifestos nas vidas futuras na forma de certo corpo físico e sutil destinado a certas experiências de prazer (sukha) e dor (duḥkha), conforme variem a predominância dos méritos e deméritos previamente acumulados no corpo causal.

Oração é higiene do corpo causal

A oração nada mais é do que a higiene do corpo causal. Com relação aos obstáculos presentes no nosso corpo físico, podemos fazer kriyās, mudrās e āsanas para combatê-los, da mesma forma que fazemos prāṇāyāmas, meditações e contemplações para combater certas obstruções do nosso corpo sutil (energético e mental). O que fazer com relação aos obstáculos presentes no corpo causal, na forma de resultados negativos da ação passada? A resposta é a oração (pūjās, agnihotras, pārāyaṇas, etc.). A oração diária, em qualquer forma que ela se manifeste, é parte da higiene do corpo causal.

E não é por mágica que essa limpeza ocorre. A oração (seja de qualquer tipo: mental, oral ou física) é uma ação. Toda ação possui um resultado. O resultado da ação religiosa ou espiritual a qual damos o nome de “oração” é um mérito específico capaz de neutralizar os deméritos acumulados no corpo causal, os quais seriam, caso não fossem neutralizados, responsáveis por inúmeras obstruções na nossa vida. 

Oração nasce da prudência e objetividade

Essa conexão entre a oração e a produção de mérito capaz de neutralizar dificuldades futuras não é, obviamente, perceptível pelos nossos sentidos, mas isso não implica que essa conexão seja inexistente, fruto meramente de um pensamento mágico ou supersticioso. O Veda é como uma testemunha confiável que nos revela certos fatos que não podem ser diretamente testemunhados por nós, mas que são, não obstante, existentes. A existência de resultados invisíveis da ação; a existência de um corpo causal; a relação entre oração e produção de mérito; o fato de que os méritos produzidos pela oração sejam capazes de neutralizar os deméritos acumulados na experiência passada; — não há nada de irracional em nenhuma dessas afirmações. O mais prudente, portanto, é levá-las em conta.

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Um comentário em “Mantra não é Pensamento Mágico

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