Sempre desconfie de chavões. Fórmulas consagradas de pensamento, ainda que possam ser a semente de alguma intuição valiosa, por si mesmas mais encobrem do que revelam, funcionando apenas como um simulacro fácil de conhecimento genuíno, o qual é sempre trabalhoso, exigente, difícil. Achar-se sabedor de algum assunto apenas por estar de posse de algumas frases feitas sobre ele é como se considerar milionário por guardar no cofre notas falsas de dinheiro. O lastro de valor substancial inexiste em pensamentos de papel.
Esse é o caso da célebre oposição entre fé e razão. A primeira, dizem, é algo irracional, supersticioso, relacionado com as religiões e os mitos, ao contrário da razão, ferramenta das ciências, do “Iluminismo”, do conhecimento propriamente dito.
Como é possível, munido de tal banalidade travestida de conhecimento, entender o sūtra do Yoga segundo o qual a fé não só não é oposta ao conhecimento, mas é sua etapa primeira, o fundamento mesmo do seu edifício?
“Śraddhā-vīrya-smrti-samādhiprajñā-pūrvaka itareṣām – Para os outros (nós, que temos um corpo) o conhecimento claro é precedido de discernimento, memória e persistência, os quais só são possíveis pela força da fé (śhraddhā)”.
Yogasūtra — I-20
Façamos, pois, nosso esforço de compreensão do sūtra. Se, de início, é inevitável que a nossa mente se guie por frases feitas, que tal, pelo menos, escolhermos algumas mais decentes? Sugiro esta, do filósofo francês Gustave Thibon:
“La foi consiste à ne jamais renier dans les ténèbres ce qu’on a entrevu dans la lumière – A fé consiste em jamais renegar na escuridão aquilo que se entreviu na luz”.
Gustave Thibon
É certo que o vislumbre de uma realidade não depende do esforço humano. Às vezes o céu da mente é iluminado por algum relâmpago, e um surpreendente panorama irrompe do nada no horizonte do nosso conhecimento. Passado, contudo, o brilho fugidio daquela intuição, a noite de novo se instala. Abandonamos a nova possibilidade tão rápido quanto recolocamos no lugar dela as mesmas ideias de sempre, como quem veste, ansioso para dormir, um velho pijama (furado mas reconfortante).
No fundo, o sujeito sabe que ele não é seu corpo, seus pensamentos, suas emoções. Não faz sentido que seja. A afirmação das escrituras védicas tanto quanto a lógica mais elementar (você não é algo que você vê) nos sussurram calmamente essa verdade. E ainda que a fome, a ira, o desejo — os velhos instintos de sobrevivência e procriação — nos gritem o contrário, não nos deixamos abalar. Reafirmamos, serenos, para nós mesmo, ainda que atordoados e vacilantes, aquilo que tínhamos entendido sem entender direito.
A passividade do reconhecimento-relâmpago deve ser sucedida pelo esforço de prolongar a iluminação, reter a visão da paisagem. Conservá-la na memória, acalentá-la, nutri-la. Reconstituir seus detalhes. É isso que o Yoga chama de contemplação, dhyāna, samādhi. Meditação é, antes de mais nada, um ato de fé. Transformar um relâmpago, primeiro, numa lua cheia, depois num sol nascente. Depois num sol de meio dia? Talvez. Mas, acima de tudo, começar a enxergar no escuro.
“Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de lua.”
Grande Sertão: Veredas.

